ESQUINA CULTURAL

Barrigas Diferentes

Meus filhos caçulas cresceram rapidamente. Parece que foi ontem que escrevi sobre a chegada de Lucca e Louise. Cresceram fisicamente e também amadureceram precocemente. Acho que a permanente convivência com os irmãos maiores precipitou essa passagem. Muitas vezes me surpreendo com os seus argumentos e, principalmente, com as boas perguntas que me fazem. Quando estou cansado respondo apenas com um porque não ou com um porque sim. Quando estou mais disposto tento desenvolver uma argumentação lógica sobre os questionamentos feitos e termino mesmo com um porque não, e pronto.

Recentemente percebi nos dois, principalmente no Lucca, um desejo de conversar sobre coisas que eles já têm conhecimento, mas que ainda não tiveram a curiosidade totalmente respondida. Uma delas é sobre as suas origens biológicas. Volta e meia ele (o Lucca) chega com questionamentos sobre o seu nascimento. Numa última conversa que tivemos, quando passamos um final de semana num hotel, foi mais ou menos assim: “pai, se nós não nascemos da barriga da mainha, de qual barriga nós nascemos?”. Respondi, dizendo: “é, de fato vocês nasceram da barriga de outra mulher”. Ele continuou: “então, a gente (aí ele já falava por ele e pela irmã Louise) gostaria de conhecer a nossa mãe”. Mais uma vez eu lhe dei a mesma resposta: “mãe vocês só têm uma. Apenas nasceram de uma barriga diferente. Mãe não é quem pariu vocês, mas quem criou. A maternidade nem sempre implica num laço de amizade e de afeto. Isso só se encontra na mãe que criou vocês desde pequenos”. Assim mesmo ele insistiu: “mas por que a gente não pode conhecer a outra mulher de onde nós saímos da barriga?”.
 
Olhei para os dois e tive vontade de encerrar a conversa com um porque não, mas como estava gostando segui dizendo para eles: “prometo que outro dia voltarei a falar sobre isso, e vou procurar uma maneira de satisfazer a curiosidade de vocês. Eu também não tenho muitas informações, mas quem sabe quando vocês crescerem poderão me ajudar nessa tarefa”.

Ele ainda olhou para mim e fez uma última pergunta: “quer dizer que o Marco e a Inês também nasceram de outra barriga?”. Respondi que sim, e ele saiu todo feliz. O problema é que ele tem alguma dificuldade de relacionamento com os dois, e saber que eles têm o mesmo “problema” era uma espécie de consolo.

Semana seguinte a Inês recebeu um convite para ir ao Colégio deles para conversar sobre os meninos. Minha mulher preocupada chamou o Lucca e foi logo dizendo: “Lucca, o que você andou aprontando? Olhe que eu e seu pai nunca fomos ao colégio para ouvir reclamações do Marnes, do Plínio ou do Marco. Espero que não seja nada ruim de você”. Ele, então, olhou para a mãe e respondeu: “é, minha filha, o problema é nascemos de barrigas diferentes”

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

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