ESQUINA CULTURAL
Quando caem as bandas (de lado)

Durante a vida vamos convivendo (sem muita naturalidade) com a perda das pessoas situadas numa faixa de idade mais elevada que a nossa. De vez em quando (de forma menos natural ainda) vamos observando perdas antecipadas e sempre dolorosas (aquelas que quebram a cronologia chamada natural, que naturalmente nunca aceitamos). Agora, complicado mesmo é quando começam a cair as bandas (de lado), começamos a perder os amigos contemporâneos. A dor da perda acompanha-se do susto (quase aviso) de que estamos, pelo menos (nunca naturalmente), entrando na fila.

Semana passada perdi um amigo. Passei cedo pelo Parque das Flores e o encontrei (pela - sei lá - última vez) apenas na companhia de sua esposa e de uma das filhas. Tive a oportunidade de ficar sentado a sua frente, e aproveitei para refletir a vida mergulhando no meu passado, voltando ao bairro do Prado e percorrendo descalço as suas ruas ainda sem calçamento, seguindo na direção da Barbearia de seu pai, onde sempre nos encontrávamos para iniciar alguma conversa ou travessura. Embora nos conhecêssemos desde criancinhas, a nossa amizade foi selada e sedimentada durante os anos em que juntos estudamos medicina. Compúnhamos, junto com o Eraldo Vovô, um famoso trio que se destacava nas atividades escolares, e também nas brincadeiras sempre comandadas pelo Zito (disparado, o mais "maloqueiro" dos três).

Das maiores travessuras, lembro-me de uma praticada "contra" um outro amigo, já falecido precocemente, chamado Hermano (não lembro se escrito assim): "Era época de Copa do Mundo, anos 70, ainda não assistíamos com tanta facilidade as transmissões dos jogos por televisão. Havia terminado a aula de (acredito) Farmacologia, e uma das atividades práticas utilizava sapos para verificação de ação de fármacos. Assisto o Zito embrulhando um sapo (enorme) que havia sido utilizado por ele, como se fosse levar para casa. Seguimos em direção ao pátio, e logo percebi pela sua cara (carinhosamente cínica) que estava tramando alguma coisa. Lá encontramos um grupo de colegas que, ao redor de um rádio portátil, se preparavam para (acreditem) ouvir o jogo. Nisso, chega o Hermano com uma velha bolsa de Filosofia, que carregava nem sabíamos para quê (porque nunca a abria), e a joga no chão procurando um local para se sentar. O Zito, rapidamente, abriu a bolsa e dentro colocou (todo embrulhadinho) o sapo morto na aula prática. Num dos gols do Brasil, o Hermano, eufórico (depois do pulo para comemorar), já sentou em cima, esmagando o indefeso (porque morto) sapão. O Zito olhava para mim e ria do acontecido.

Como era sexta-feira, apenas reencontramos o Hermano na segunda-feira seguinte, com este relato: 'chegando em casa na sexta-feira jogou a bolsa em cima do guarda-roupa e caiu na farra. A partir do sábado acordou com um odor terrível em toda a casa e começou a procurar o motivo. Depois de muitas tentativas achou que era rato morto dentro da caixa d'água, e subiu no telhado da pensão onde morava para tentar descobrir. Fez mil tentativas e não conseguiu descobrir a fonte do odor. O lugar menos provável para procurar era, justamente, a velha bolsa que ele nunca abria, e por isso apenas na segunda-feira à noite, quando voltava para Faculdade, foi que descobriu onde o Zito havia colocado o sapo. Teve que jogar a velha, e agora imprestável, bolsa fora' ". Ele morreu sem saber que o autor da brincadeira tinha sido o "maloqueiro" do Zito.

Podia falar do Zito também a partir de meus filhos, que o tratavam carinhosamente pelo nome de Tio Zito; podia falar do Zito pelo respeito dos alunos, professores e corpo administrativo da UNCISAL; podia falar do Zito pela estima e pelo carinho de todos os funcionários da CEAL; podia falar do Zito a partir do testemunho de sua vasta clientela. Optei em falar do Zito através de suas travessuras, para tornar essa prosa (naturalmente) menos triste. Mas, vou deixar que fale mesmo pelo Zito, a sua bela prole de quatro filhos (todos médicos), a partir de agora responsável para continuar construindo a história da família Macedo, que um dia migrou dos domínios de uma pequena e desconfortável Barbearia, para dominar o campo da medicina (naturalmente).

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista

E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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