ESQUINA CULTURAL
Ativando a rotina

Há bom tempo que acordo com o refrão da música de Chico Buarque na cabeça: “todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã...”. A única diferença é que a música trata do cotidiano e da monotonia (ou do dinamismo) da vida conjugal, e esse não é o meu problema. Quem me desperta de segunda a sábado é o soar do alarme atestando a chegada de minha sogra que, embora morando num prédio vizinho, não foge à rotina de me preparar o café todas as manhãs (raro privilégio) e, por isso, me “sacode da cama”, invariavelmente, todos os dias da semana, sempre no mesmo horário. Aliás, acho que o relógio biológico dela anda desregulado desde que iniciamos com o horário de verão, porque ela passou a se orientar pelos horários dos programas de televisão, e está me “sacudindo” uma hora antes do necessário.
 
Pulo da cama rapidamente, porque tenho apenas um minuto para desligar o alarme evitando que duas sirenes bastante estridentes acordem toda a vizinhança, e volto para a cama para dormir os dez minutos mais preciosos que desfruto todos os dias. É que o meu despertador está “rotineiramente” programado para, definitivamente, me acordar às seis e dez. Tenho um sono muito superficial, tipo aquele que espera a chegada de cada filho nos seus diferentes horários da madrugada, talvez por isso, sonhe pouco ou quase nunca, mas, quando retorno para a cama para dormir os meus valiosos dez minutos até consigo sonhar.
 
Esta semana estava tão cansado que tive um curioso sonho, daqueles tão verdadeiros que se confundem com a vida real. Até o próprio despertador que soou dez minutos depois das seis foi incorporado ao sonho e fez parte dele como se fosse integrante da “realidade” sonhada. Mergulhei de novo no sono e quando de fato acordei foi assustado e olhando para um relógio que fica defronte de minha cama que já registrava quase dez horas da manhã. Pulei da cama com aquela sensação de ter perdido os compromissos de um dia de trabalho e ainda um pouco confuso para entender como tudo havia acontecido. Foi aí que descobri que era terça-feira, 15 de novembro, feriado nacional, e que o relógio biológico de minha sogra também não está programado para feriados de meio de semana, por isso, me havia “sacudido”, mesmo no feriado da República, às seis horas da manhã, ativando a minha rotina.


 

Marco Mota / Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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