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Eram os médicos astronautas?
Semana que passou estive participando de um dos maiores
congressos de cardiologia do mundo. Fui até a cidade de Orlando
(Flórida), nos Estados Unidos, participar do American Heart
Association (AHA). A minha inscrição foi de número 34.586 e
certamente não devo ter sido um dos últimos inscritos. Neste
Congresso, anualmente são apresentadas as novidades mais
recentes no campo tecnológico e terapêutico; a comunidade
científica toma conhecimento dos resultados dos Estudos mais
recentes (os bem sucedidos e aqueles que resultaram em
fracasso). Até a Bolsa de Valores se agita com o sucesso e o
insucesso das indústrias farmacêuticas.
Aproveitei bastante a parte científica e ainda sobrou um
tempinho para o lazer e pequenas compras. Orlando é uma cidade
meio mágica e, segundo um amigo que lá mora há dez anos, o local
onde para se ganhar um milhão de dólares deve-se gastar pelo
menos três.
Embora satisfeito com a assimilação de conhecimentos novos, o
que marcou mesmo a minha ida ao AHA foi um fato acontecido no
último dia de atividades previstas. Desci para o café matinal já
em ritmo de final de festa e não desejava mais voltar ao Centro
de Convenções (local do Evento). No restaurante do hotel
encontro o meu amigo irmão Carlos Machado (um dos cardiologistas
mais importantes deste meu Brasil). Ele, no seu jeitão meio
caipira de dizer as coisas (nasceu em São José do Rio Preto), me
interpelou: “oh meu, o Congresso já acabou para você?”.
Disse-lhe que não pretendia mais assistir as últimas atividades,
mas ele insistiu para que fosse com ele para ver algo de seu
particular interesse. Era uma palestra intitulada Cardiologia e
Espiritualidade, título um pouco destoante para um ambiente
científico. Confesso que fui apenas para lhe fazer companhia, e
lá chegando percebi que na enorme sala apenas estavam eu, ele,
as quatro pessoas componentes da mesa redonda e talvez mais umas
seis pessoas.
Encerrada a atividade saí dali refletindo o porquê de um assunto
tão palpitante e provocador de discussões como aquele não
pudesse ser de interesse de um público maior. Será que diante de
todo o avanço do conhecimento e da tecnologia não tenha sobrado
nem um lugarzinho no coração de meus colegas cardiologistas para
eles perceberem, até mesmo diante de seus limites, a presença e
a grandiosidade de Deus. Será que a secularização reduziu a
religiosidade a algo tão pequeno e desinteressante que Deus não
possa mais ser percebido nem nos locais para onde ele conduziu o
próprio homem, dando-lhe sabedoria. Ou seriam os médicos
astronautas?
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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