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Artrose tem suas vantagens
Sempre tive pavor de viajar de avião. Os compromissos de
trabalho forçaram-me a enfrentar essa dificuldade, mas não foi
fácil. Lembro-me que ainda jovem, quando jogava futebol
profissional, inventava uma contusão para evitar as partidas
fora do meu Estado ao desconfiar que o meio de transporte era o
aéreo. Muitas vezes enfrentei estrada de carro (até de fusca)
com destino a São Paulo e Rio de Janeiro, viajando três dias
para fugir dos aviões que levariam no máximo três horas.
Quando resolvi enfrentar esse meu medo procurei me certificar
das seguranças dos aviões, e uma das coisas que logo aprendi foi
que o perigo residia sempre nas subidas e descidas. Confesso
que, mesmo controlado, o medo ainda se manifesta um pouco na
hora de subir. Ainda não consigo me convencer que algo mais
pesado que o ar possa flutuar. Sempre que o avião inicia o
processo de subida dou uma olhadinha pela janela para ter
certeza de que estou ficando longe do solo (quando vejo nuvens
me sinto seguro). Na descida o medo quase que desapareceu,
porque percebo que a viagem está perto do fim e a expectativa é
de no máximo 15 minutos.
Recentemente tive uma recaída quando comecei a entender mais
sobre esse problema de controle de vôo. As últimas notícias da
fragilidade desse Sistema me deixaram apavorado. O medo que
havia vencido dos pousos e decolagens agora reapareceu (e mais
intenso) durante toda a viagem. Fico sempre imaginando que, de
repente, pode vir pela frente um outro avião voando na mesma
altitude e, nessa expectativa, levo praticamente a viagem
inteira.
O problema é que no passado havia alternativas. No tempo
presente andar de carro nas esburacadas estradas do meu País é
um risco enorme. Além disso, temos que contar com os constantes
bloqueios das estradas pelos Sem-Terra. Até para irmos de Maceió
para Recife antes tenho que ligar para amigos no sentido de
identificar algum bloqueio. Viajar de ônibus, que poderia ser
uma alternativa, também está cada dia mais complicado pelos
freqüentes, e muitas vezes violentos, assaltos.
A única vantagem é que agora já não preciso mais simular
contusões para fugir dos compromissos. Os meus velhos joelhos
servirão como boa justificativa para cancelar compromissos
quando a viagem não tiver atrativos que a justifique. Se bem que
ficar em casa também já não é tão seguro quanto na época em que
o problema de viajar de avião era apenas subir e descer.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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