Em outras prosas já falei de um retrato que
tenho em meu consultório onde registro a última foto de minha
família completa. Nela, aparecem os dois filhos menores, que são
gêmeos, ainda bem pequenos (deviam ter naquela oportunidade
menos de um ano). Os clientes mais observadores olham para a
foto e exclamam: “que família grande, doutor!”. Em seguida,
perguntam: “os pequenos já são os netinhos?”. E eu respondo que
não (apesar de parecerem), que ainda são filhos, os meus
caçulas. Depois, vem o espanto maior quando se atrevem a contar:
“puxa, doutor, são dez mesmo?”. Em seguida, vem a colocação
bastante comum: “a sua esposa não deve ter outra ocupação por
conta dessa enorme tarefa diária, não é mesmo?”. Quando afirmo
que a minha esposa também é médica, e trabalha fora tanto quanto
eu, a confusão aumenta e ficam perplexos.
A minha última conversa foi com uma paciente que tinha um único
filho com seis anos de idade. Ela, depois desse diálogo inicial,
revelou-se surpresa, e disse não entender como administraria
esse tipo de realidade. Disse-me que esse filho absorve todo o
seu tempo (sufoca mesmo), e agora havia mudado de um apartamento
para um sítio só para ele ter mais espaço e uma vida mais em
contato com a natureza. Falou-me, em seguida, na super proteção
que exercia sobre o seu único filho e, no final, revelou-me um
detalhe que me motivou a fazer essa prosa: “doutor, a minha
última providência foi mandar arrancar todas as raízes que havia
no sítio para que o meu filho não se machucasse”. Depois,
perguntou-me: “o senhor teria esse mesmo tipo de cuidado?”. Eu,
dando um sorriso, respondi-lhe que não, e completei dizendo-lhe
que até deixaria que ele levasse boas quedas e proveitosos
arranhões.
Notei que ela ficou chocada com a minha afirmação, e para que
entendesse a minha conduta, procurei explicar-lhe o porquê,
perguntando-lhe: e quem irá arrancar as “outras raízes”
(causadoras de tropeços) que a vida, certamente, colocará na
frente de seu querido filho?
Marco Mota
Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br