ESQUINA CULTURAL

Aposentando a dúvida

Estou em processo de aposentadoria depois de efetivos 32 anos de trabalho como Professor Universitário. Um ano depois de formado já iniciava a minha atividade como Professor de Cardiologia da antiga Escola de Ciências Médicas de Alagoas, hoje a Faculdade de Medicina da UNCISAL. Além da atividade de Professor, exerci por duas vezes o cargo de Diretor do Hospital Escola Dr. José Carneiro, e tive a felicidade de ser o primeiro ex-aluno a se tornar Diretor da Escola que vi nascer.

Pensei ser esse Natal um propício momento de reflexão para avaliar essa minha trajetória, e por que não dizer esse fechamento de um ciclo de minha vida produtiva. Como Natal é tempo de espera e de renascimento pretendo transformar essa decisão numa experiência positiva. Tenho me questionado se era mesmo chegado o tempo de “guardar as armas”. Ensinar para mim sempre foi a maneira mais inteligente de aprender, e muito mais do que ensinar eu troquei com meus alunos experiências durante todos esses anos.

Nos últimos anos (já em função da maturidade conquistada) procurei ser um professor diferente, que não valorizava o conteúdo e tampouco as avaliações cognitivas. Costumava dizer no primeiro dia de aula que ninguém seria reprovado na minha disciplina, porque sempre acreditei que um dos maiores problemas da aprendizagem reside num processo de avaliação voltado para resultados. Sentia pena de meus alunos quando percebia o desinteresse nas discussões, e o motivo apresentado era sempre uma prova de um determinado professor que exigia demais resultados sobre os conteúdos aplicados. Algumas vezes tive que atender à pedidos para postergar uma aula porque naquele dia os alunos não tinham condições psicológicas de realizar qualquer outro trabalho produtivo já que a maratona de provas havia começado. Procurei ter uma preocupação mais voltada para a formação do profissional num sentido mais amplo — profissional cidadão.

Antes de tomar essa decisão, por alguns momentos refleti muito sobre uma dúvida atroz que me perseguia, se eu seria um professor velho ou um velho professor. A primeira vista parecem ser a mesma coisa, mas se olharmos com atenção vislumbramos uma sutil diferença: enquanto um professor velho representa a figura de alguém que o tempo (idade biológica) determina o exato momento de parar, um velho professor pode ser um professor ainda novo, com experiência e disposição, mas que motivos estranhos tenham feito com que ele, para um determinado projeto institucional, esteja envelhecido. Como não consegui distinguir ao certo se sou um velho professor ou um professor velho, preferi aposentar essa dúvida.

Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br

Voltar

Desenvolvido pela Gerência de Tecnologia da SBC - Todos os Direitos Reservados
© Copyright 09/06/2026 | Sociedade Brasileira de Cardiologia |
tecnologia@cardiol.br
 Busca