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Um anjo bom nas nossas vidas
Muitos me perguntam como pude ter tantos filhos e educá-los
nesse tempo atual, sendo médico e casado com uma médica, e ambos
tendo tantas atividades a cumprir. Eu sempre respondo dizendo
que temos alguns trunfos a contabilizar.
Posso destacar o fundamental apoio que tivemos (e ainda temos)
de minha sogra, que ficando viúva ainda muito jovem assumiu a
administração de nossa casa, coordenando as atividades das
“crianças” desde o nascimento até o momento do desmame (alguns
já com mais de 30). Nesse exato momento já se mudou para a casa
de Annelise (filha mais velha) para seguir sua atividade, agora
já com a terceira geração (os bisnetos).
Depois, a própria solidariedade que surge numa família grande
ajudou bastante nesta tarefa educacional. Os grandes começaram a
ter preocupações e cuidados com os menores, assumindo-os como se
fossem filhos.
O terceiro trunfo que tivemos foi a presença em nossa casa, por
mais de 30 anos, de dona Loura. Encontramo-nos pela primeira vez
quando construímos uma casa de veraneio na praia do Sauachuy.
Dona Loura, ainda muito jovem, cuidava da casa e viu nascer
nossa primeira filha (Annelise). Depois de um determinado tempo
de convivência, a trouxemos para Maceió quando passou a assumir
o controle da casa. Não era apenas uma empregada doméstica, mas
uma espécie de mãe para os filhos já existentes, e para os que
foram chegando. Amava-os imediatamente, e era correspondida
nesse amor por todos (sem exceção). Ela era unanimidade.
Assim fomos construindo a nossa família. Sem ter combinado nada
um com o outro, cada um foi assumindo a sua parte e fomos
crescendo.
Na madrugada do dia cinco de julho fomos despertados por um
telefonema da Ângela (sua filha que também já vive conosco há um
bom tempo) comunicando que ela tivera a sua situação de saúde
agravada (estava internada na Santa Casa de Misericórdia para
submeter-se a uma delicada cirurgia). Antes de para lá me
dirigir liguei para o meu colega de plantão, que confirmou a sua
morte.
Ficamos todos abalados com uma perda tão dura e repentina. Os
meus filhos experimentaram pela primeira vez a orfandade. Perder
a Loura foi uma dor preparatória para outras perdas que virão,
assim é a vida.
Junto à saudade, que vai se arrastar por bom tempo, fica o
exemplo de sua bondade. Mulher de pouca conversa, mas de humor
privilegiado. Nunca a vi aborrecida. Havia presenciado algumas
vezes a sua tristeza. Era capaz de sentir quando algum de nossos
filhos não estava bem, e de nos alertar para chegar mais perto.
Tinha preocupações do tipo: ”dona Inês, eu percebi que na
calcinha de uma das crianças tinha um pouco de secreção”. Às
vezes chegava para me dizer: ”doutor (como resolveu me chamar
desde que chegou) estou achando o “fulano" muito triste”. Outras
vezes, ficava preocupada quando alguma coisa sumia em nossa
casa, mas eu sempre dizia: “a única que não é suspeita é a
Loura”.
Pela manhã, quando voltava para casa depois de ter providenciado
o envio de seu corpo para sua casa (onde sonhava envelhecer),
ouvi de Inês um murmúrio: “dona Loura foi um anjo bom nas nossas
vidas”. Bota bom nisso
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Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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