Eu sempre penso em São Francisco quando tomo conhecimento de
maltrato a que são submetidos animais domésticos e silvestres.
São Francisco, segundo seus biógrafos e a tradição religiosa,
era um amante da natureza, dos seres vivos, animais e aves. Um
amor singelo por todas as criaturas viventes.
Essas considerações vêm a propósito de uma notícia divulgada em
jornal, que agrediu minha sensibilidade. Vou reproduzi-la, sem
acrescentar uma virgula: “Um morador de rua da cidade de
Cruzeiro do Sul, foi preso, na noite de anteontem, após ter sido
flagrado assando um cão para se alimentar, no terreno baldio
onde vivia. Segundo habitantes da região não foi a primeira vez
que isso aconteceu. Nos últimos dez dias, ele teria roubado e
comido quatro cachorros”. Alimentar-se de cães faz parte da
cultura chinesa, mas no Brasil!...
Ah, meu São Francisco! Seria um caso de prisão ou de internação
num hospital psiquiátrico? A fome desse “humano” o obrigou a
tanto, ou se trata simplesmente de mais uma prática de
crueldade?
As mesmas células, neurônios e tecidos produziram criaturas como
Gandhi e Osama Bin Laden, Madre Tereza de Calcutá e Hitler;
extremos opostos de bondade e abnegação de um lado, de
brutalidade e crueldade de outro.
Os habitantes da Índia escolheram um animal que consideram
sagrado: a vaca. Se eu tivesse de fazer uma escolha desse tipo,
não teria dúvidas: o cachorro é o animal de minha predileção.
Faço uma rápida pesquisa na Internet para saber o que diz a
legislação sobre maus tratos, ferimentos e mutilações infligidos
a animais domésticos. Uma lei, de 1999, prevê multas e prisão de
até um ano, como punição aos abusos e atrocidades cometidas
contra animais. A lei está sendo cumprida?
Telefono para um amigo e discuto com ele esse assunto de
“comedor de cães”. Ele me conta um fato comovente. Seu filho, de
dois anos, quase morreu ao escorregar na parte rasa da piscina
de sua casa. Seu cachorro, pastor alemão, o salvou: latiu e
uivou, desesperadamente, até que sua mulher correu para saber o
que estava acontecendo; retirou a criança da piscina a tempo de
fazer respiração artificial e salvá-la. O cão é o herói de sua
família.
“Quando se é capaz de lutar por animais, também se é capaz de
lutar por crianças e idosos. Não há bons ou maus combates,
existe somente o horror ao sofrimento aplicado aos mais fracos,
que não podem se defender” (Brigitte Bardot).
José Medeiros
é médico e ex-Secretário de Educação
e de Saúde