|
* Amor que não se mede *
Li, em jornais, a história de uma mãe que se
jogou num carro em movimento para salvar o seu bebê. Fechava o
portão de sua casa quando foi surpreendida por um ladrão que
assumiu o volante do automóvel e
disparou rua a fora. O motivo do desespero da mãe não foi
somente pelo carro roubado. Motivo principal: no banco traseiro,
dormindo, estava seu filho de um ano.
Apavorada, correu atrás do veículo e
agarrou-se ao espelho retrovisor. “Leve o carro e deixe meu
filho”, gritava, convulsivamente. Arrastada por todo um
quarteirão caiu numa valeta. Apenas, nesse momento, o ladrão
olhou para trás e viu a criança. Dois quilômetros depois
abandonou o veículo.
O bebê nada sofreu e foi encontrado ainda
adormecido. A mãe teve escoriações em quase todo o corpo,
luxação no tornozelo e traumatismo craniano. Algumas horas
depois, quando voltou a si, não se conteve;
gritava e chorava, agarrada ao filho quase perdido. Sem
perceber, havia dado uma prova de amor dessas que não se medem
e jamais são esquecidas.
O criminoso apresentou-se, voluntariamente, numa
delegacia de polícia. Tinha uma explicação simplória: fora
roubar o carro, mas desistiu ao saber que havia uma criancinha
no banco traseiro. Pai de família, tinha
profundo amor pelos filhos. Compreendeu a dor da mãe que estava
sendo arrastada.
Esse episódio lembrou-me o último Dia das Mães
acontecido em maio. Um aluno, meu conhecido, contou-me que as
comemorações em sua escola são muito expressivas. Entretanto,
o professor encarregado de proferir a palestra sobre a data,
repete, ano após ano, o mesmo texto, que se inicia com a frase:
“Uma mãe é para cem filhos e cem filhos não são para uma mãe”.
Muito justo, vez que as mães tudo merecem. Entretanto, sempre
causou estranheza, sua afirmativa “de que não se justifica o
Dia dos
Pais, já que a contribuição dos pais à família tem sido
cada vez menor”. Essa crítica repete-se anualmente. Os alunos
resolveram fazer um protesto através de versinhos que
circularam na escola.
Os versinhos: “O pai, a mãe e o filho / são
quase sempre a mesma coisa /
carne da carne, sangue do sangue / desvelo de um, amor de outra,
compreensão de todos nós”. /
O professor sentiu-se ofendido. Chamou os alunos
para uma conversa. Ouviu o que não queria: sua preleção era
repetitiva, os pais não mereciam esse tratamento. Na conversa,
os alunos compreenderam as razões e o porquê da revolta do
professor. Tratava-se de um desabafo, tradução de um drama
particular, mágoa escondida nas profundezas de seu psiquismo:
seu pai abandonara a família, os filhos haviam passado fome; a
mãe “matara-se” de trabalhar para sustentá-los.
Os estudantes compreenderam a tragédia que
havia atingido a família do mestre, mas não arredaram pé de
suas opiniões sobre o Dia dos Pais.
José Medeiros
é médico e ex-Secretário de Educação
e de Saúde
Voltar
|