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AMOR, MEU GRANDE AMOR
Maria Teoro Ângelo
Hoje é dia de prestar contas, viu? Ainda não se sentiu ameaçado,
à margem da vida, discriminado porque ainda não encontrou o
grande amor que o mundo exige que se tenha? Mesmo tendo alguém
que figura como seu companheiro, se a fase superlativa da paixão
já se foi e tudo está se tornando meio sem graça, há um desejo
de que tudo volte como era nos tempos áureos da fase iniciante.
Quem não tem ninguém sonha com um homem com modos de príncipe,
sem defeitos, com a coragem suficiente para transpor os muros de
seu castelo e salvá-la da solidão a que se julga condenada.
Hoje é dia de ganhar um presente romântico, de jurar amor eterno
e de ser princesa dos contos de fada. É dia de ouvir frases de
amor e de observar as cafonices dos exagerados, seja nas mesas
reservadas há dias nos restaurantes, seja na intimidade dos
encontros a dois. Mas a manifestação amorosa é sempre assim. Não
conhece limites. Depois há um arrependimento dos mais sensatos
ao ver quão ridículo foi tudo o que fizeram ou falaram em nome
dela.
O caminho que o amor percorre vai da paixão passageira ao
assentamento das emoções e a tranqüilidade de um misto de amor,
amizade, cumplicidade e outros propósitos muito mais idealizados
do que reais. Conservar um estado de graça por anos a fio é
tarefa impossível de ser cumprida. O dia-a-dia se encarrega de
macular e arrefecer tantos arroubos. Para quem tem
responsabilidade, o jeito é tentar minorar os estragos, refazer
os atos, recomeçar tudo todos os dias, todas as horas, pela vida
inteirinha. Pode valer a pena. Pode não valer. O amor pode se
manter em níveis suportáveis ou ir morrendo pouco a pouco sem
chance de salvação.
Quanto apostamos nesse sentimento complicado, que sempre se
apresenta menor do que desejamos. Quem ama quer o infinito de
tudo. Quem ama quer tudo por inteiro. O amor é uma sociedade a
dois, é dedicação exclusiva, é esperar do outro muito mais do
que podemos retribuir, é ser implacável na vingança, é cura e
doença.
Amar no sentido romântico é perigoso, é sentimento sujeito a
temporais. É enfrentar mares bravios ou a calmaria insuportável
da falta de ação. Se, apesar de tudo, o amor vencer , não por
méritos próprios, mas pela capacidade de quem ama, aí podemos
dizer que valeu a pena e que afinal de contas, o grande amor é
apenas um sobrevivente.
12/06/2008
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