ESQUINA CULTURAL
"Amigo velho", assim falava o meu amigo Sergio Houly

Escutar a expressão "Amigo velho, tudo bem ?" fazia parte da minha rotina de assistir à chegada do Serginho a qualquer grupo de pessoas. Sempre haveria nesse ou naquele ou em qualquer grupo, alguém por ele considerado "amigo velho".

Sempre assisti a essa saudação com um pouco de pesar... pois nunca seria assim chamada... provavelmente porque "amiga velha" não carrega consigo esse quê (ao menos por mim percebido) de passe-livre para uma confraria, uma irmandade, uma associação... a dos amigos do Serginho... o tempo me mostrou que essa confraria em realidade tem muitos confrades (o mundo inteiro se assim fosse possível dela faria parte!), muitos passes (o meu, especial na minha crença, "minha amiga"!), nenhum segredo, nenhuma norma e uma única verdade: é impossível não querer participar dela. Porque nela, o seu mentor, iniciador de todos os que dela participam, fazia-nos sentir como verdadeiramente somos neste universo: únicos, humanamente falíveis mas sempre passíveis de respeito e amizade.

Redimensionar continuadamente o ser humano utilizando uma escala de generosidade e grandes lentes de bondade, essa era, inquestionavelmente, a tarefa diária a que eram convidadas todas as pessoas que conviviam com Serginho (e muitas vezes a nosso contragosto, admitamos, quando os dias pareciam desumanamente pesados e as pessoas diabolicamente construídas). Porque essa era a sua forma de enxergar as pessoas (pelo seu lado melhor, o lado mais próximo de Deus que o das pequenezas humanas) e, através delas, o mundo. Um mundo que sob essa ótica, era sempre muito melhor do que aquele que costumamos enxergar, através de lentes muito humanas, rotineiramente impregnadas com as cores do medo, da mágoa, da indiferença, da inveja, da cobiça, da ira e dos tantos mil outros pecados que já conseguimos inventar.

Por isso creio que nos últimos dias nosso universo sofreu um desequilíbrio com a ausência do Serginho. A paz cedeu um pouco do seu espaço ao caos, o amor às agruras do sofrimento, a amizade às chamas da rivalidade, a temperança aos desacertos emocionais, a confiança aos vendavais da dúvida, a completitude às profundezas da solidão. Porque nós perdemos, entre nós, esse referencial, conscienciosamente construído pelo Serginho, ao longo da sua própria existência e sem dúvida às custas de um inquestionável processo de educação interior de optar primeiro e continuamente pelo elogio ao correto do que pela exaltação do erro, pelo reconhecimento do esforço do que pela identificação da falha, da busca pelo crescimento do que pela miudeza das almas. Uma busca pela vida, com o compromisso de enxergar o humano, sem esquecer a responsabilidade de tomar decisões conscientes, responsáveis e corajosas (o diálogo como arma, o respeito pelo outro como munição).

É impossível não sofrer com a perda. É impossível não recordar a grandiosidade da sua humana simplicidade. Por isso desejo, que no nosso processo de reparação dessa dor, sejamos capazes de ir resgatando, diariamente, o que de melhor existe em nós (e que sem dúvida um dia já nos foi anunciado pelo Serginho em uma daquelas longas conversas que em algum momento acreditamos que ele só tinha conosco, seu/sua amigo/amiga "especial"). E que em função desse resgate, reconstruamos diariamente em nossa memória permanente e no melhor do nosso carinho, o "amigo velho" de todos nós. Eternamente enquanto vivamos.

Por Maria Alayde Mendonça

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