Muitas vezes tenho ocupado este espaço para falar sobre
amizades que vamos encontrando pela vida, principalmente aquelas
que nos marcam positivamente. É comum dizer-se que os amigos
verdadeiros a gente escolhe para ter. Não penso assim sobre
essa questão. Acho que os amigos vão acontecendo sem que a
gente escolha e, por isso, devemos estar atentos para que eles
não passem, de repente, em nosso caminho sem que percebamos.
Devemos estar sempre alertas e abertos para novas amizades,
cuidando para que o preconceito que muitas vezes fazemos de
determinadas pessoas não impeça o encontro e a descoberta de
novas e definitivas amizades. Digo definitivas, porque amigos
conquistados não são coisas que se perca; perdemos apenas
aqueles que não soubemos conquistar, pelo inadequado uso da
ferramenta chamada de afetividade.
Um outro conceito que circula com
desenvoltura é de que para se conhecer os amigos de verdade
faz-se necessário que se realize com eles uma viagem. Que pode
ser para qualquer canto e não precisa ser muito demorada. Já
tive a oportunidade de sentir que esse conceito parece ter
fundamento. Percebi, certa feita, que o relacionamento com
outras pessoas (que considerava amigas) tornou-se complicado
quando passamos a repartir desejos e aspirações em torno de
preferências acidentais (e muitas vezes simples), surgidas no
desenvolvimento de uma viagem de lazer. Por isso, permaneço com
a impressão de que esse teste da viagem tem algum sentido,
embora não deva ser utilizado como uma prova definitiva de que
essa ou aquela pessoa não nos serve para ser amiga.
Numa recente viagem, aprendi com um amigo do
Ceará uma preciosidade sobre amizade. Muitas vezes a gente
encontra certas pessoas, com as quais temos de início uma forte
empatia; em seguida, desenvolvemos esforços para consolidar a
amizade, mas percebemos que o amigo "desliza", e a
coisa não se completa. Parece que a amizade não encaixa bem e
ficamos sem entender o porquê daquele entrave. Esse colega me
ensinou que existem algumas pessoas que são bastante legais,
mas que "vazam duas gotinhas de óleo" (talvez por
isso deslizem).
Quando insisti para que elucidasse a razão
do comentário, ele explicou: "É mais ou menos assim:
você se apaixona por um determinado carro, faz as contas e
resolve comprá-lo. Anda com ele o dia inteiro, fica surpreso
com a desenvoltura do motor e, no final do dia, está certo de
que fez uma boa compra. À noite, guarda o carro, no dia
seguinte acorda todo satisfeito para dar outra volta e, quando
chega na garagem, observa que debaixo do carro, na parte
dianteira, tem duas pequenas gotinhas de óleo que vazaram do
possante motor".
Assim são os amigos, mais ou menos.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br