|
amém
Continuamos os
preparativos para a viagem do grupo familiar em fevereiro do
próximo ano. É uma longa e dura preparação. Nesta terça-feira
foi o dia de tirar visto americano para quem ainda não possuía,
ou estava vencido. Numa avaliação preliminar enxergávamos alguma
dificuldade com Anita, que está formada em veterinária, mas
ainda não tem emprego. Nessa perspectiva nos preparamos e
seguimos para Recife, sede do consulado.
Vencidos os trâmites regulamentares como: enfrentamento de fila,
entrada sob rigorosa fiscalização, lá estávamos à espera da
entrevista (eu, Inês, Marnes, Renata e Anita). O início foi
descontraído, até que de repente, o funcionário perguntou
quantos filhos nós tivemos? Eu respondi: dez filhos. Em seguida
perguntou a Inês: “com quantos anos a senhora teve seus últimos
filhos (Lucca e Louise agora com nove anos)?”. Inês, um pouco
embaraçada e surpresa com a pergunta ainda tentou fazer as
contas, mas demonstrou insegurança.
Nesse momento, ouvi do entrevistador a mais cruel das perguntas
que nos poderia ter sido feita (com a rudeza peculiar aos
entrevistadores): “onde estão os pais biológicos dessas duas
crianças?”. E ainda completou: “começar uma entrevista consular
com uma mentira é muito ruim”.
Naquele instante, senti que saltamos, numa fração de segundos,
de pais para suspeitos de sermos traficantes de crianças.
Entreguei os documentos das crianças e nossa certidão de
casamento, e ele nos pediu para não guardarmos nada porque
voltaríamos a essa questão. Sussurrei para Inês, olhando ao
redor onde estava um sisudo funcionário de segurança nos
acompanhando, e disse: “acho que vamos sair daqui presos”.
Em seguida, o funcionário consular passou a fazer perguntas para
o Marnes, que tentava o visto de Hugo (meu neto), e para a
Anita. Foram perguntas simples e costumeiras. Concluída essa
formalidade, ele me encarou, e disse secamente: “agora vou
querer saber a verdadeira história de seus sete filhos não
biológicos”.
Como não estava preparado para uma pergunta daquele tipo diante
de uma platéia desconhecida, e ainda com a minha voz amplificada
pelos instrumentos ali postos, vivi um difícil momento. Alertado
pela informação de que uma mentira ou uma fantasia, por mim
proferida naquele momento, seria definitiva às nossas
pretensões, fui contando a história da chegada de todos os
nossos filhos, algumas até com a devida crueldade. Cada uma que
ia recordando nos detalhes, para mim, Inês, e nosso grupo
familiar ali presente, era uma recordação muito forte. Fiquei
descontrolado, mas fui em frente contando toda a história de
meus filhos, e ao mesmo tempo revivendo todas as emoções. O duro
de tudo era que não fazia aquilo por um bom motivo, mas para me
livrar da suspeita de ser um médico envolvido em tráfico de
crianças. Foi muito cruel saltar da condição de pais para
suspeitos.Depois de escutar atentamente toda a nossa história,
ele baixou a cabeça, e secamente nos disse: “os vistos estão
concedidos”.
O lado bom da história foi na saída ao passar pelo truculento
segurança. Ele me disse baixinho (para não ser escutado por mais
ninguém): “doutor, Jesus lhe abençoe”. E eu lhe respondi: Amém.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
Voltar
|