ESQUINA CULTURAL
AS ALEGRIAS E AS CINZAS

Milhares de artigos e comentários são escritos sobre o carnaval, e, passado o evento, as discussões são, predominantemente, sobre as venturas e desventuras que tenham ocorrido no reinado de momo. Quem, por acaso, se deu ao trabalho de pesquisar as origens do carnaval, encontrou explicações, as mais diversas, para as brincadeiras, fantasias, alegrias e até insanidades. Uma das correntes históricas faz retornar à velha Roma, às festas pagãs, que eram sintetizadas por uma frase famosa, em latim medieval: "semel in anno, licet insanire" (pelo menos uma vez por ano, a loucura é permitida). E uma curiosidade a mais: àquela época, as festividades duravam de 3 a 5 dias, e, durante esse período, os senhores trocavam de lugar com os escravos e lhes serviam alimentos, a fim de celebrar a igualdade. Caracterizavam o carnaval como uma festa da igualdade, onde todos brincavam, sem camarotes e arquibancadas separadores.

Não sei se o leitor já ouviu falar na palavra "catarse". Para muitos especialistas, o carnaval é uma catarse, libertando recalques e conflitos acumulados. Freud, foi quem primeiro estudou, em detalhes, o consciente e o inconsciente e deu ao termo "catarse" o sentido de alívio de tensões, de ansiedades e estresses, de traumas e angústias reprimidas. E, aí, o carnaval vira a catarse do povo, em que o prazer galvaniza os sentidos, o ambiente favorece a quebra de tabus estabelecidos, sem a necessidade de divãs de analistas.

Toda a gente tem sua história de carnaval, deliciosa ou trágica, alegre ou triste, recordada com prazer ou mantida a sete chaves nos porões das lembranças desagradáveis. E, essa história, pode ter sido mais um período prazeroso em que se brincou o que se pôde. Calcula-se que, pelo menos, um terço das pessoas refugia-se em locais de descanso, fugindo do frevo e do samba. E nem sempre é fácil manter-se longe dessas agitações. A televisão e o rádio invadem as privacidades. Para quem não desejou o carnaval, o jeito foi restringir-se aos livros, aos filmes, à Internet, aos passeios nas trilhas ecológicas, ou mais o que tenha sido o gosto do freguês.

Gosto não se discute. Há alemães que não bebem cerveja, gaúchos que não apreciam churrascos, brasileiros que não amam a feijoada, americanos que não suportam os sanduíches e "ketchups". Muitos patrícios não brincam no carnaval.

Chega a quarta-feira de cinzas. As cinzas lembram que somos pó e ao pó retornaremos. As rudezas do cotidiano são, por vezes, as penitências das quais não se pode fugir.

Mas falemos de felicidade, com Tom Jobim e Vinicius de Moraes: "A felicidade do pobre parece / a grande ilusão do carnaval / a gente trabalha o ano inteiro / por um momento de sonho / pra fazer a fantasia / de rei ou de pirata ou jardineira / pra tudo se acabar na quarta feira...".

José Medeiros

médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde

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