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Uma ação generosa Os dias maiores da Semana Santa tinham, para mim, um efeito
semelhante aos longos dias de chuva de inverno, escuros e de
poucas manifestações de alegria. Isso vem de muito longe. Na
minha adolescência, durante a quinta e a sexta-feira da Paixão,
não se comia carne, rádios tocavam músicas dolentes e
religiosas. Com a família, eu acompanhava as cerimônias
religiosas e litúrgicas, ainda proferidas em Latim, em que
predominavam os cânticos gregorianos. Relembrando esse passado,
encontro explicações para esses sentimentos guardados e
atenuados com o passar do tempo.
Recebi do meu amigo – o ilustre médico psiquiatra Rostan
Silvestre – a cópia de uma historieta muito humana, de autor
desconhecido, que, com diversos ajustamentos, na forma e no
tamanho, reproduzo para o leitor. Um dia, um rapaz pobre que
vendia mercadorias, de porta em porta, para pagar seus estudos,
viu que só lhe restava uma simples moeda de dez centavos no
bolso. Tinha fome. Decidiu que pediria comida na próxima casa
que encontrasse. Bateu à porta. Porém, seus nervos o traíram,
quando uma encantadora mulher jovem a entreabriu. Acanhado, em
vez de comida, pediu um copo d’água. Como o jovem parecia
faminto em vez de água ela lhe deu um copo de leite. Ele o bebeu
devagar, olhando-a sempre, e depois perguntou: – Quanto lhe
devo? –Não me deve nada. E continuou: – Minha mãe sempre me
ensinou a nunca aceitar pagamento por uma ação cristã. Ele
agradeceu comovido.
Quando Charles Kelly saiu daquela casa, sentiu-se fisicamente
mais forte, e, principalmente, sentiu ampliada sua crença em
Deus. Já estava resignado a abandonar todos os seus sonhos. Mas,
reagiu, e resolveu enfrentar as batalhas do dia-a-dia. Anos
depois, essa jovem mulher ficou gravemente doente. Os médicos
locais não encontraram solução para o caso dela. Finalmente,
enviaram-na à cidade grande, onde chamaram um especialista para
estudar a rara enfermidade. Chamaram o Dr. Charles Kelly. Quando
escutou o nome do lugar de onde a paciente proviera (era sua
cidade), ficou extremamente curioso. Ao ver a paciente,
reconheceu-a, imediatamente. Recordou o episódio do copo de
leite. Ela não se lembrou dele.
Decidiu fazer o melhor que pudesse por aquela mulher que lhe
estendera a mão. Depois de meses de luta para salvar a enferma,
ele conseguiu recuperá-la. Mas, os gastos com o tratamento
tinham sido enormes. Quando ela recebeu a conta teve medo de
examiná-la, porque sabia que levaria o resto da sua vida para
pagar todas as despesas. Finalmente, quando viu a fatura, algo
lhe chamou a atenção, pois estava escrito o seguinte:
“Totalmente paga, há muitos anos, com um copo de leite.
Assinado: Dr. Charles Kelly”.
Lágrimas de alegria correram dos olhos da mulher. O amor de Deus
se manifestara nas mãos e no coração daquele homem. Então ela
refletiu: o que você faz hoje poderá fazer a diferença em sua
vida amanhã.
Feliz Páscoa!
José Medeiros*
(*) é médico e ex-Secretário de Educação e de Saúde
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