ESQUINA CULTURAL

A morte do pião roxo

Fim de mais um ano (que nunca sabemos se será o último – acabo de bater na madeira três vezes - risos), e por isso nos valemos de muitas artimanhas, quase todas ligadas ao campo das superstições e das mandingas, para afastar maus olhados. Verbalizamos sempre o desejo de muita saúde, mas que embute o desejo de sucesso e dinheiro. Nesse campo vale tudo, desde o vestir branco para agradar aos “santos e orixás”, a comer romã e lentilha, sem esquecer de lavar os pés na água do mar (para quem mora em cidades litorâneas – para quem não mora é bom se deslocar para a praia mais próxima – risos de novo), e nem de enfrentar as ondas dando três pulinhos.

Confesso que não sou muito chegado a essas coisas. Sou do tipo que ao ver uma escada na passagem de uma calçada, e as pessoas, disfarçadamente, driblando-a para não passarem por baixo, a enfrento até como provocação.

Agora (é fato recente), está me acontecendo uma coisa estranha, comecei a respeitar um pinhão roxo que nasceu perto da minha vaga de garagem. Logo que o descobri solicitei a Dona Loura (espécie de patrimônio da família) que o cortasse. Notei que o meu pedido (que sempre é atendido imediatamente) não foi realizado. Falei para a Inês que já havia solicitado a Dona Loura que cortasse o tal pinhão, e ela havia esquecido. A Inês, rindo, me disse: “ela me falou sobre esse pinhão, e que não tinha coragem de cortá-lo porque sempre dá muito azar”. No dia seguinte notei que ela tinha arranjado uma solução diferente: havia amarrado o pinhão junto à parede impedindo que ao entrar no carro ele me incomodasse. A solução parecia ter caminhado para um desfecho satisfatório, mas o danado do pinhão insistiu em crescer e agora eu já nem conseguia mais entrar no carro. Então, chamei a Dona Loura (outra vez) e pedi: me traga um facão que eu mesmo vou resolver o problema. Ela foi buscar o facão e me entregou com um olhar assim como que se desejasse me dizer: “doutor, se fosse eu não cortaria esse pinhão”. Por via das dúvidas, já de facão na mão e me preparando para o corte, resolvi tomar outra decisão: a partir de ontem estou estacionando o meu carro de ré, e do meu lugar fico olhando o frondoso pinhão que continua crescendo e me desafiando.

Marco Mota / Médico cardiologista
E-mail: mota-gomes@uol.com.br

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