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2008
Mais um ano que termina (para os sobreviventes). Tempo de faxina
na casa e na vida (para os que se dispuserem). Tempo de arrumar
idéias e projetar o futuro, ainda que seja um futuro de curto e
médio prazo (para os que, como eu, não sonhem mais com projetos
de longo prazo).
A faxina da casa é sempre mais fácil (porque é meramente física,
concreta). Juntamos os papéis que se amontoaram à nossa frente
ou na cabeceira da cama e começamos a avaliar, um a um, o que
ainda vale a pena ser guardado. No início da escolha somos mais
cuidadosos e quase que lemos todos, depois vamos percebendo que
guardamos muita coisa sem valor e aí vamos separando com mais
rapidez, até mesmo correndo o risco de jogar fora alguma coisa
importante (pouca chance disso vir a acontecer). Uso sempre esta
máxima: se até agora não necessitei desse papel para alguma
coisa então ele não me fará falta daqui para frente. No final de
uma manhã de trabalho, fiquei surpreso com o volume do entulho
que tinha coletado para jogar fora (embora da coleta, pouco
seletiva, ainda reste sempre alguma coisa que será jogada fora
apenas no próximo ano).
Este foi também um ano de ampla reforma na casa (também reforma
física). Tivemos que fazer uns ajustes na sua estrutura e, de
repente, quase que passamos um ano morando em nosso quarto. Além
de nós, todos os utensílios e alguns móveis que para lá foram
remanejados. Para ir ao banheiro durante a noite tinha que usar
sinalizadores para não sair tropeçando nas coisas espalhadas
pelo chão. O amplo quarto transformou-se num apertado depósito.
Imaginem o que é reformar uma casa inteira, com demolições e
construções, e continuar morando nela com uma família numerosa.
Estruturalmente posso dizer que sobrevivemos (nós e o Dado,
nosso fiel escudeiro).
A outra faxina é sempre mais complicada, porque implica em
avaliar o que fizemos da vida no ano que está terminando para
poder projetar o que deve ser mudado nas nossas rotas para o ano
que se avizinha. Essa é a parte mais dura e, por isso, sempre
protelada. Até acho que começamos pelas arrumações físicas
justamente para, no final, ficarmos com essa sensação de que
tudo foi de fato contemplado. Quando arrumamos o quarto, a sala
ou o escritório, imaginamos ter completado a reforma e que
estamos devidamente preparados para vencer uma nova etapa na
vida.
Não tive tempo para fazer as duas faxinas, mas assumi comigo um
compromisso: no próximo ano vou guardar menos porcarias para
poder recomeçar a minha faxina refletindo sobre a vida que levei
e não pelas “coisas” que na vida fui juntando.
Essa estratégia pode nos ensinar a guardar menos e deixar tempo
para refletir mais sobre o que fazemos (ou não fizemos) ou me
levar a guardar mais e não sobrar tempo para refletir sobre o
que deixamos de fazer.
Marco Antônio Mota Gomes
Médico cardiologista
E-mail:
mota-gomes@uol.com.br
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